domingo, 16 de dezembro de 2012

Por que o Alfredo apavora todo mundo?


Um homem chamado Alfredo

Vinicius de Moraes

O meu vizinho do lado
Se matou de solidão
Ligou o gás, o coitado
Último gás do bujão
Porque ninguém o queria
Ninguém lhe dava atenção
Porque ninguém mais lhe abria
As portas do coração
Levou com ele seu louro
E um gato de estimação


Há tanta gente sozinha
Que a gente mal adivinha
Gente sem vez para amar
Gente sem mão para dar
Gente que basta um olhar
Quase nada
Gente com os olhos no chão
Sempre pedindo perdão
Gente que a gente não vê
Porque é quase nada


Eu sempre o cumprimentava
Porque parecia bom
Um homem por trás dos óculos
Como diria Drummond
Num velho papel de embrulho
Deixou um bilhete seu
Dizendo que se matava
De cansado de viver
Embaixo assinado Alfredo
Mas ninguém sabe de quê.



Uma das figuras mais assustadoras é o suicida.
É curioso que a sociedade aceite a morte como um fato. E que a aceite como fato quando acontece naturalmente, por acidente ou provocada por terceiros, mesmo que com requintes de crueldade, mas que se apavore diante de um suicida.

O suicida está de antemão condenado. Para os assassinos busca-se uma explicação, discute-se os possíveis motivos... mas para o suicida não há argumentos. Sua morte é varrida para baixo do tapete o mais depressa possível. As pessoas evitam comentar que se tratou de um suicídio.

Matar alguém ou matar muitas pessoas, como nos massacres já comuns nos Estados Unidos, provoca a reprovação social, choca as pessoas, libera um sentimento de medo nas pessoas e uma busca geral de explicações. O assassino devia ter algum problema. Drogas? Problemas psicológicos? Por que? Por que?

Quando o assassino de mata no final, como ocorreu no massacre em Connecticut nesta semana, deixa um clima de "tá explicado, ele mesmo se julgou, se condenou e se puniu".

Mas, e o Alfredo?
O Alfredo é o fantasma que dorme no mesmo travesseiro que você, que come no seu prato, que divide as gotas de água do seu banho, que ganha o mesmo beijo do seu filho, que faz a mesma oração que você.

Por que o Alfredo causa tanto pavor em você?
A mim, ele fascina!
Mas eu vejo o medo nos olhos de todo mundo quando se fala do Alfredo.
O mundo mudou muito e a cada dia muda mais depressa. As pessoas vão perdendo cada vez mais rapidamente suas referências, esquecendo suas raízes, desligando-se de antigos costumes, inventando novas maneiras de se comunicar, quebrando preconceitos... até as religiões estão ganhando uma nova roupagem. Mas o suicídio continua um tabu. Intocável.

Sempre me encantei com ele.
Para mim, ele é a síntese do livre arbítrio que Deus me deu.
Eu sei quando basta. Eu sei porque basta. E só Deus partilha esse saber comigo.

Mas as pessoas ficam transtornadas quando se fala do assunto.
Vinícius foi muito corajoso ao falar de suicídio, ao transformar em poesia e, principalmente, ao revelar alguns motivos que causam tanto pavor.

"O meu vizinho do lado se matou de solidão" - quando alguém se mata ou tenta, a sociedade se cala para não admitir que falhou. Falhou ao não perceber ou não querer perceber a solidão de alguém. Porque solidão não é estar sem uma ou muitas pessoas ao lado. Solidão é não ser entendido.

"Porque ninguém o queria. Ninguém lhe dava atenção. Porque ninguém mais lhe abria as portas do coração" - Aqui Vinícius fala como a sociedade transforma uma pessoa qualquer - rica ou pobre, famosa ou comum, feia ou bonita, inteligente ou burra... - em um Alfredo.

O Alfredo é a pessoa que, depois de ter batido em todas as portas, encontra as portas do próprio coração fechadas. Se ninguém o quer, ele também não quer mais a si próprio.

"Há tanta gente sozinha que a gente mal adivinha" - Eis a causa do pavor, penso eu. A pedra de toque: há tanta gente sozinha e todos nós somos sozinhos, por natureza somos sozinhos e únicos. Passamos a vida tentando negar essa solidão que é a nossa individualidade. Procuramos o tempo todo esconder, disfarçar esse ser único, lindo, fingindo que somos grupais, vivendo em bandos, fingindo que somos gregários. Anulamos muita coisa para olhar na mesma direção que o grupo, para seguir metas coletivas, para continuar no bando.

"Um homem por trás dos óculos, como diria Drummond" - Quando o Alfredo está de óculos, ele vê o mundo, mas só uns poucos Drummond conseguem ver Alfredo, o homem. E esta é a maior dor da solidão: eu vejo você, mas você não me vê. E isso é muito confortável para você. Se você não me vê, não vê também a minha dor, não precisa me ouvir, não precisa me abraçar, não precisa nem mesmo se lembrar de mim. Basta me cumprimentar, se eu lhe parecer bom.

"Deixou um bilhete seu, dizendo que se matava de cansado de viver. Embaixo assinado Alfredo, mas ninguém sabe de quê." - Viver cansa. Certamente não cansa a todos. Mas cansa aqueles que viveram na intensidade com que a vida se deu. Cansa aquele que souberam colher o fruto de cada dia "Carpe Diem". E chega um tempo em que corpo e alma já não tem força ou vontade de colher o momento. É como a ressaca depois de uma grande festa.

Não há o que julgar a respeito de quem fez seu próprio julgamento.




    

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