Quando eu era criança (isso faz meio século) as pessoas tinham mais tempo. Imaginem que nos finais de tarde muitas delas levavam banquinhos para os portões e ficavam ali, conversando com os vizinhos enquanto viam seus filhos brincar. Elas também tinham tempo para ensinar muita coisa para seus filhos e para aprender com eles. Não eram conversas muito tecnológicas, altos papos. Eram conversas respeitosas, onde o pouco que se sabia vinha recheado com muito amor.
Foi com base nessas conversas com pai, mãe, avó, tias, vizinhas e amigos que aprendi muita coisa. Muita coisa ficou gravada em minha alma e em minha cabeça. Aprendi com meu pai uma das coisas mais importantes da minha vida:
"Ouça tudo. Leia tudo. Pense sobre tudo. O que for bom, guarde com você. O que não prestar, joga fora."
Durante muitos anos conduzi minha vida por essa máxima. Mas, não sei em que momento, começou a entrar muito lixo, mas muito lixo mesmo. Não dá nem tempo para pensar. E as pessoas que me rodeiam não querem esse lixo de volta. Querem grandes sacadas, frases geniais, ideias brilhantes, como se eu fosse uma usina de reciclagem capaz de transformar lixo em sabedoria. Mas eu não sou.
Os americanos, com aquele jeitão inteligente de vaca mascando chicletes, tem uma sigla que sabiamente resume a questão: GIGO -
garbage in/garbage out - entra lixo/sai lixo.
Então, está aqui esse blog, que não vou divulgar porque ele é um depósito de lixo. Talvez conte dele para uma ou duas pessoas muito especiais e só.
Esse blog é o meu muro das lamentações. Acho que todo mundo tem direito a um ombro para chorar. Tanta gente já chorou nos meus ombros, que eu acho que mereço pelo menos um ombro virtual. Antes que eu morra.
Várias pessoas me aconselharam a escrever. Fizeram isso de maneira até a acariciar meu ego, dizendo que eu escrevo bem etc e tal. Mas na verdade o que queriam dizer é "você precisa falar, mas eu não tenho tempo de (ou não quero) te ouvir. Então escreva, é um jeito de jogar o lixo fora. De jogar fora a dor. De jogar fora a tristeza. "Tira isso de dentro do peito pra você conseguir respirar."
Então, vamos lá!
Primeiro preciso contar o que restou de mim, ou, o que ainda se pode ver de mim que ainda não foi soterrado.
Estou triste. Muito triste. Triste como nunca pensei que pudesse ser. Uma tristeza que dói, que não começa e não acaba, que não descansa nem quando durmo. Estou tão triste que começo a me sentir má. Eu não disse mal - eu disse má, de maldade. Eu não conhecia esse sentimento antes. Eu achava que era maldade minha quando me divertia vendo um filho da puta se estabacar no chão. Mas agora eu pego desejando que algumas pessoas não tão filhas da puta se estabaquem também e eu não vou nem sentir vontade de rir. E isso só me deixa mais triste e roforça o pensamento que está chegando a hora de partir antes que eu me torne uma pessoa muito feia por dentro - porque por fora eu já estou.
Estou presa a um concentrador de oxigênio 24 horas por dia. Sei que posso melhorar isso, mas não sei se tenho força ou se quero.
Continuo fumando. Sei que não posso e não devo, mas não consigo convencer o cigarro a me abandonar.
Sempre adorei sorrir. Hoje não posso mais. Fiz um maldito implante completo na arcada superior, que ainda é provisório, mas que está horrível e me dá vergonha de sorrir.
Os corticóides (bombinhas) que tomo para a DPOC estão terminando de destruir os meus dentes inferiores e eu não tenho como sair de casa para ir a um dentista. Então, falta um canino inferior o que me dificulta a mastigação e me confere um lindo "sorriso jurídico". Quero explicar o "sorriso jurídico" porque é uma história triste, mas da qual já demos muitas risadas. Um casal de amigos estava passando pelas maiores dificuldades financeiras, com três filhos para criar e o meu amigo ainda devia muitas pensões alimentícias ao filho do seu primeiro casamento. Acionado judicialmente a fazer o pagamento, ele não tinha como. Então, eu e sua mulher sugerimos que ele comparecesse frente ao juiz e lhe desse um sorriso, mostrando a falta de um dos dentes da frente: o "sorriso jurídico" - aquele sorriso que conta toda a sua desgraça. Demos muitas risadas disso e eu não sei se ainda vou rir do meu sorriso.
Estou magra como um pau de virar tripa. Ah! Essa é só para o pessoal da antiga, que sabe que antigamente se usava as tripas do porco para fazer as linguiças, mas que era preciso lavar as tripas antes de enche-las e vira-las com a ajuda de um pau para que as tripas pudem secar...
Magérrima e com dificuldades para comer é perfeito.
De resto, tudo em mim está um horror.
Estou muito sozinha e desamparada. E agora vou começar a jogar o lixo fora.
Eu odeio São João da Boa Vista/SP (quero deixar bem claro a cidade da qual estou falando). Esta porra é o meu pelourinho. Quando estou aqui, todo mundo que passa aproveitada para dar uma chibatada, um chute, uma cuspida, ou mesmo um tapinha nas costas, dizendo: "Força."
Todo mundo sempre me perguntou porque passei minha vida indo embora e voltando para cá.
É verdade, eu sempre voltei.
Minha família estava aqui. Minhas raízes estavam na minha família e minha família tinha suas raízes aqui, nessa terrinha de gente miúda.
Se alguém desta cidade quiser me fazer uma homenagem póstuma (as pessoas adoram isso), eu aceito, desde que seja um título de
"Persona non grata". Acho que minha alma ia ter um pouco de paz com isso.
Mas eu voltava.
Voltava porque sentia falta do meu pai. Precisava conversar com ele. Sei que ele não entendia muitos problemas que eu contava, se nunca quis dirigir minha vida, nem quando eu era criança, depois é que ficou arisco de vez. Mas ele lia minha alma quando olhava nos meus olhos e seus olhos contavam para minha alma o que eu precisava saber. Eu precisava sentir aquela mão pesada e áspera tirando meus cabelos da testa e empurrando para tras. Eu precisava ficar ao lado dele, nem que fosse em silêncio. Mas ele se foi.
Eu voltava porque sentia falta da minha mãe. Dos seus olhos miudinhos, do seu sorriso tímido e da alegria estampada em seu rosto quando me via. Eu precisava de seu carinho, de seu colo. Eu precisava contar para ela o que se passava comigo. Ao contrário do meu pai, ela fazia um grande esforço para me entender e me dava um monte conselhos, que na maioria eu não podia seguir, mas podia beber do amor que havia em cada conselho. Mas ela também se foi.
Eu voltava porque tinha a Tia Jandira. Sempre pronta a mudar de opinião só pra agradar - era a forma que ela conhecia de dizer "estou ao seu lado, seja lá que lado for esse". A minha Didi, que nunca entendia os meus problemas, que nunca dava conselhos, mas sempre concordava comigo. Como era doce aquela cumplicidade. Mas ela também se foi.
Voltava porque tinha um filho, irmãs, sobrinhos...
Durante todos os anos que trabalhei em Campinas e Indaiatuba nunca deixei de vir para São João num único final de semana de folga, exceto se alguém da família fosse para lá - e foram raras essas oportunidades.
Meus três sobrinhos nasceram antes do meu filho e eu sempre os amei muito.
A Cris já tinha uns 5 anos quando eu fui embora pela primeira vez.